Oncotô?Entrei no Café Pérola uma vez. Uma vez só. Isso foi pouco antes dele fechar em 1997. Estava de mão dada com meu avô. Naquela época, não gostava de política, não tolerava jornal e sequer suportava o amargo cafezinho. Meus pais chegaram a Belo Horizonte de trem. Belo Horizonte chegou a Bello Horisonte de trem. Treze anos depois, marchei consideravelmente, cavalguei, trotei e andei. Sobretudo corri atrás. E hoje, agora que o Café Pérola fechou, eu não vivo sem política, não deixo de ler jornal e não começo meu dia sem o cheiro de grão moído. Se você veio parar aqui, passe a se imaginar numa estação ferroviária. Aliás, já que o exercício não é tão difícil, vamos caprichar. Coloque um Café dentro dessa estação. Cheirinho da bebida passada na hora, barulho de locomotiva, gente caminhando, página de jornal sendo virada. Trens que chegam de todos os cantos. Trazendo carga, trazendo carta. Trazendo bicho, circo e gente. São trilhos que vêm do mundo. É uma rede. São páginas de jornal com textos intermináveis. É uma notícia. São várias. Beber café não é preciso, papear é preciso. Um Café Pérola que trocou a Praça Sete pelas páginas da internet. Aqui é lugar de se conectar. Falar de tudo um pouco. É hora de Imaginar que o JK acabou de passar pelas palmeiras, desceu a João Pinheiro distribuindo sorrisos e atravessou toda a Affonso Penna de bonde para contar aqui, que resolveu ser Presidente. Dá para espiar o Tancredo cochichando as Diretas ali no canto. É possível notar o Drummond rabiscando uma pedra no meio do guardanapo e ouvir o Fernando Sabino contar a última do mentecapto. Aqui entro eu, entram eles e entra você. Mais que o aroma forte, há um quê de inconfidência no ar. Aqui se fala de Minas, do Brasil e do Mundo. Um palmo de chão limpo onde os homens de bem podem se encontrar, onde brigam somente as idéias e onde o primeiro compromisso é a liberdade. |